DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C04P02. Segura-me

A música não estava tão alta no Abby’s quando saímos do banheiro. Kris e eu conversávamos sobre algumas futilidades e ela insistia para que eu me mantivesse animada. E realmente estava. Reconheci de longe a música Springsteen, de Eric Church. Fazia um bom tempo que não ouvia músicas dele. E ao voltar à mesa que deparei-me com Max, que havia ido encontrar alguns amigos e jogar sinuca. Não pude desviar o olhar quando ele levantou e se aproximou de mim, dizendo:

– Que bom reencontrá-la aqui. Preciso lhe pedir desculpas.
Você não precisa fazer isso, Max. – respondi.
Preciso sim, Anna. O modo como lhe tratei naquela noite não foi correto. – tentou argumentar.

Quando percebi Kris já havia voltado à mesa em que estávamos sentados e, de longe, piscou o olho para mim, como se fosse uma autorização para seguir adiante com Max. Eu não queria me aborrecer, mas ele estava com um semblante preocupante.

– Nós dois viemos com amigos para cá, para nos divertirmos. Sendo assim, sugiro que encontremo-nos em outro lugar, em outro dia, para que possamos conversar com calma. Pode ser, Max?
Sim! Amanhã, que tal uma pizza? Conheço um local bem bacana, chama-se Gotham Pizza.
Está bem. Saio do trabalho às 8:00 pm e encontro você lá. – respondi.

Quando sentei de volta todos fitaram-me com ar surpreso. Acabei contanto sobre o incidente que havia ocorrido na Starbucks e sobre o garoto que andava desaparecido. Alguns fizeram piadinhas sobre o futuro encontro com Max, mas afirmei que o propósito não era nada romântico. A noite seguiu tranquila, num bom momento de descontração entre amigos. Percebi, vez ou outra, que Max não parava de me olhar. Kris também percebeu isso.

No dia seguinte o trabalho me consumiu de tal maneira que havia esquecido completamente que havia marcado a pizza com Max. Uma nova conta surgiu para a HL Studios e Harry havia solicitado pessoalmente que eu cuidasse de todos os detalhes diretamente com o cliente. Não poderia fazer feio para nenhum dos dois, afinal meu emprego dependia totalmente disso. Quando faltavam dez minutos para o término do expediente Kris se aproximou de mim.

– Anna, como você está? Falou com o bonitão de ontem?
Oi! Estou morta… minha nossa, acabei aceitando um convite para nos vermos hoje e havia esquecido!
Então o que está esperando? Arrume-se e aproveite a noite! – disse ela, toda empolgada.

Confesso que não estava muito animada com esse encontro. Além do mais, os afazeres do trabalho haviam me consumido de tal forma que eu queria minha cama. Mas, como havia combinado, segui à pizzaria, que depois percebi ser bem próximo ao meu apartamento. Assim que entrei no restaurante avistei Max, em uma mesa mais ao fundo, próximo à janela.

– Olá, boa noite. – eu disse.
Pode se sentar Anna. E obrigado por ter vindo. – disse ele em tom bem suave.
Está bem. Mas, por favor, seja breve, não quero chegar tarde em casa.

Minha expressão facial não era das mais convidativas e a leitura que Max fez deve ter indicado que eu estava com fome. Entregou-me o cardápio e, conforme minha solicitação, recomendou que pedíssemos nossas pizzas. Foi quando me dei conta que nunca havia ido naquele lugar, mesmo sendo tão próximo de casa. Um restaurante bem aconchegante e, a julgar pelos sabores, as pizzas pareciam muito saborosas. Chamamos a garçonete e fizemos nosso pedido.

Anna, naquela noite… eu peguei pesado com você. Sei que fui rude e por isso quis tanto lhe pedir desculpas.
– Não sei porque a insistência, você falou tudo aquilo em um tom que parecia não se importar com qualquer pessoa. Você nem … – e me interrompeu, segurando minha mão direita.
Peço que me escute e depois tire suas conclusões. – disse ele, enquanto concordei com a cabeça. E continuou. Anna, pode parecer estranho o que vou dizer, mas eu conheço a realidade daquele menino. Aos 11 anos de idade meus pais morreram. A justiça determinou que eu ficasse na casa da minha tia, junto com meu irmão, que tinha 07 anos. Quase um mês depois do acidente com meus pais, acabei acordando para beber água. Depois que levantei percebi que meu irmão não estava na cama. Procurei pela casa toda e não o encontrei. Meus tios não tinham filhos, então fui correndo acordá-los, pois não sabia o que fazer. Sarah ligou imediatamente para a polícia, que foi ao local registrar tudo. Todos estavam chocados.
Minha nossa, sinto muito … e o que aconteceu com seu irmão? – perguntei.
Depois de algumas semanas que o Kevin havia desaparecido minha tia entrou em depressão. Ela não suportava o fato de ter perdido a irmã e, agora, o sobrinho. Ela chorava quase diariamente e começou a faltar ao trabalho. Paul, seu marido, começou a brigar comigo, dizendo que eu era culpado pelo sumiço do meu irmão. Foi quando ele começou a me bater. Toda a frustração que ele tinha acerca de tudo que estava acontecendo na vida dele era descontada em mim. Angustiado e sem forças para aguentar mais uma noite resolvi fugir também. Deixei um bilhete na gaveta de peças íntimas da minha tia com um pedido de desculpas e saí no meio da madrugada. Não sabia para onde ir, mas tinha que encontrar meu irmão. Vaguei pelas ruas por dias e noites, procurando em casas próximas, escolas e alguns abrigos do bairro. Nada.

C04P02. Segura-me

A garçonete trouxe nossas pizzas, juntamente com copos de Coca-Cola bem gelada. Bebi um gole do refrigerante e pedi para que ele continuasse a estória.

Eu já não me alimentava direito, não tinha qualquer higiene e dependia do que algumas pessoas me davam para sobreviver. Eu tinha que ficar à margem da sociedade, pois caso fosse pego pela polícia sabia que entregariam-me à minha tia e eu não queria voltar para lá. Passaram-se meses nessa situação. Foi quando descobri uma pista. Estava nevando e eu estava congelando próximo à ponte do Brooklyn quando dois homens se aproximaram de mim. Achei que seria meu fim, mas eles me levaram a um abrigo bem distante dali. Eram voluntários do “Coalition for the Homeless” e cuidavam de pessoas em situações como a minha ou ainda piores. Antes mesmo que alguém me oferecesse uma cama ou algo para comer perguntei sobre meu irmão. Por sorte eu estava com meu cartão de identificação e a atendente conseguiu encontrar a última localização do Kevin. Ele estava em um abrigo bem longe dali, mas os dois homens se dispuseram a me levar lá. Quando o vi, não acreditei e o abracei na hora. Lógico que minha vontade era de brigar com ele, mas não tinha a menor condição de fazer isso. Ele também chorava de felicidade por me ver, mas também de tristeza, pois não queria que voltássemos à casa de Sarah. Noites depois acabou me revelando que Paul também batia nele e, em determinada ocasião, quase abusou sexualmente dele, impedido apenas pelo retorno repentino de Sarah após sair mais cedo do trabalho. Certa noite liguei para minha tia e contei que havia encontrado Kevin e que ambos estávamos vivos. Aos prantos, ela pediu que voltássemos imediatamente para casa. Paul já não estava mais lá. E foi o que fizemos.

Eu estava atônita com a estória que acabara de ouvir. Não imaginava que tudo aquilo poderia ter ocorrido com Max. Também não entendia a reação dele quando maltratou tanto a mim quanto aquele garoto naquela noite. Então percebemos que não havíamos comido a pizza, que agora estava fria.

Olha Max, sinto muito por tudo o que aconteceu com você e seu irmão, de verdade. Mas, se você passou por tudo isso, por que não ajudou aquele garoto, o Carlton?
Anna… as ruas são perigosas. As pessoas são capazes de muitas coisas para conseguirem o que querem, às vezes a um preço muito alto. Enquanto estive nas ruas, vi o sofrimento de muitas famílias que após perderem tudo não tinham para onde ir. Há muitas instituições e pessoas de bem que querem ajudar o próximo, que amparam e realmente mudam a vida das pessoas. Mas vi também pessoas que fugiam da polícia e da cadeia. Vi pessoas que usavam seus filhos como instrumentos para conseguir comida e dinheiro. Alguns, inclusive, chegavam ao ponto de usá-los como iscas para atrair outras pessoas e assim assaltá-las.
Você não acha que Carlton era …
Não sei. Mas o modo como o ajudou me tocou, trouxe à tona sentimentos de uma época que eu achava estar enterrada. Queria afastá-la de qualquer perigo quando agi daquela forma.
E se você estivesse errado? E se fosse somente ajuda que Carlton queria?
Por isso quis pedir desculpas. Anna, vi em seus olhos a compaixão que eu queria que muitas pessoas tivessem tido comigo quando eu estava nas ruas. Seu olhar era sincero, puro. Você mexeu comigo Anna, eu tinha que falar com você.

Então me dei conta que Max não era uma má pessoa e que a ação ocorrida naquela noite era decorrente de uma adolescência sofrida com a perda dos pais e outros traumas. Max foi muito sincero comigo aquela noite e agora eu o compreendia, mesmo sem concordar com o que ele fez. Segurei a mão dele e o desculpei. Contudo, ele devia desculpas a mais alguém: Carlton. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o fiz prometer que iria ajudá-lo de alguma forma.

Max, pode contar comigo quando achar Carlton. Quero estar com você. – disse.

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Publicado às 07/02/15 por em Contos e marcado , , , , .
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