DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C04P01. Segura-me

O mês estava prestes a terminar e tudo o que eu mais queria era sossego. Queria tempo para descansar, para refletir sobre os últimos acontecimentos e, principalmente, para decidir quais seriam os próximos passos. Nem sempre foi assim: eu vivia aproveitando tudo ao máximo, como se não houvesse amanhã – ou, pelo menos, eu tentava. Em alguns momentos fingia a mim mesma que estava tudo bem, que o certo seria não pensar muito para evitar aborrecimentos. Foi assim que tudo começou, quando entreguei-me, totalmente, mais uma vez.

Após um dia exaustivo no trabalho, dediquei uns minutos de caminhada, ainda que o tempo não fosse o mais adequado. Vesti um moletom cinza bem quentinho, uma camisa branca comum, daquelas típicas de liquidação da Calvin Klein, coloquei o celular com os fones de ouvido no bolso e calcei um tênis bem confortável. Por volta das 7:20 pm desci as escadas do prédio e fui em direção ao parque, que ficava a duas ou três quadras dali. Meu pai sempre fez questão que eu morasse num local próximo de tudo. Quisera eu que um McDonald’s não estivesse ali, mas não poderia lutar contra isso. O tempo estava agradável, cerca de 17º C e poucas nuvens no céu.

Havia muitas pessoas na rua quando comecei a caminhar. Prendi meus cabelos com a esperança de que não sofressem com a ação do vento. Incrível como as pessoas se tratam como seres invisíveis. Parecia estar caminhando sozinha, pois os olhares nunca se cruzavam e isso de certa forma me causou tristeza. Não fique assim – quase podia ouvir minha mãe me aconselhando em momentos como esse. Levantei meus olhos e procurei observar a paisagem, focando no tom alaranjado das folhas das árvores e nos pássaros que voavam baixo em busca de alimento. Não pensei duas vezes e coloquei Natalie Imbruglia para tocar. Uma voz calma e melancólica que combinava perfeitamente com aquele clima de inverno. Aos poucos percebi que a caminhada me fazia bem, retirando o estresse adquirido após um exaustivo dia de trabalho.

Antes de voltar ao aconchego do meu apartamento, decidi tomar um café bem forte e comer alguma coisa. Devia, aliás, ter feito isso antes da caminhada. Já estava com meu pedido em mente e, para minha sorte, não havia fila na Starbucks. Um croissant e um caffè mocha, por favor. Após pagar, sentei-me na mesa vaga mais próxima. Minhas pernas suportaram bem os 90 minutos de caminhada. Pena que não posso dizer o mesmo dos meus cabelos. Bem, nada que uma boa ducha não resolvesse. Continuei ouvindo o álbum Left of the Middle enquanto me alimentava, já pensando no vapor da água quente.

De repente um burburinho se formou no caixa, quando um rapaz começou a gritar com um pequeno garoto, que também estava na fila. Tentei não dar importância, mas a criança trajava roupas simples e tinha em seu olhar uma expressão de sofrimento, digna de preocupação. O rapaz, contudo, não se ateve a esse detalhe e negou o pedido do garoto para que ele lhe comprasse algo para comer. Foi quando me levantei e fui ao encontro do garoto que, às lágrimas, espantou-se com minha aproximação. O que houve, eu perguntei. Desculpe senhora, eu só estava pedindo algo a este senhor, mas já estou indo embora. Eu respondi a ele que não precisava se preocupar e que daria o que ele quisesse. Minha surpresa aumentou quando o rapaz indignou-se do meu ato. Não chegamos a discutir, mas ele retrucou que minha atitude não mudaria em nada a vida do garoto e que eu estava apenas fomentando a perpetuação da miséria alheia. Não acreditava no que acabara de ouvir, então tentei me afastar dele, trazendo para mim o jovem rapaz.

Já do lado de fora, com mais calma, conversei com ele. Meu nome é Anna, e o seu? – perguntei. Carlton. Sra, muito obrigado pela comida. Não quero dar mais trabalho. – disse ele, olhando-me tristemente. Conversamos por um bom tempo e descobri os motivos pelos quais Carlton, um garoto de apenas 06 anos, mas muito maduro, estava na rua em pleno abandono. Ele havia fugido de um abrigo em que reside e procurava, de forma quase desesperada, por alguma ajuda. Novamente Carlton me agradeceu e então se despediu, mas fui impedido de segui em virtude da chuva que estava por vir. Fiquei entre a cruz e a caldeirinha, literalmente. Nesses poucos segundos de dúvida perdi o garoto de vista e fui obrigada a ir embora.

Era tarde quando cheguei no meu apartamento. Só pensava em tomar um bom banho, com uma ducha bem quente e forte para descansar os pés que quase me matavam. Passava da 01:00 am quando saí do box. Enrolei-me numa toalha branca e deparei com minha imagem no espelho. Meu cabelo estava maior do que o de costume, mas continuava tão claro quanto os cachos da Cinderela. O rosto já não apresentava sinais de cansaço, contudo não poderia dizer o mesmo das rugas oriundas da idade avançada. Temia entrar na casa dos 30. E lembrar do pequeno Carlton só aumentava minha angústia. Decidi deitar logo, para assim descansar.

Acordei cedo, mas não o suficiente. Estava atrasada, então arrumei-me o mais rápido possível, desci as escadas como se estivesse com um skate e corri para a Starbucks, a fim de buscar um café e beber enquanto dirigia-me ao trabalho. Agradeci à atendente e, ao virar para a porta esbarrei o café em um rapaz que estava atrás de mim, aguardando o pedido dele. Ei, o café está quente! … Espera, você? – disse ele. Não acreditei quando reconheci aquele ser e estava em dúvida se ficava sem graça por ter derrubado o café logo nele ou se ficava com raiva por ter sido justamente o rapaz que havia me insultado no dia anterior. Olha, não foi intencional, certo? Desculpe-me e tchau – eu disse, já tentando seguir caminho. Calma garota, não tenha pressa, quero falar com você. – disse Max, colocando sua mão em meu ombro. Seu nome estava escrito num crachá enorme que estava em seu peito. Max, não é? Então, ontem não foi legal, não temos nada para conversar. Tchau. – segui, atordoada com esse reencontro repentino. Max ficou parado como um poste, atônito por minha reação.

Meu chefe não estava contente com meu atraso, porém recompensei entregando as artes finalizadas que o cliente havia solicitado. Ele ficou muito satisfeito e até perdoou minha pequena falta de atenção ao relógio. Esse cliente traria bons recursos financeiros à empresa e senti orgulho de ter sido escolhida para cuidar dessa conta. Num momento de pausa para mais um café até lembrei do incidente ocorrido pela manhã. A reação do rapaz em querer falar comigo me causou estranheza. O que ele poderia querer comigo? – pensei alto. De quem você está falando Anna? – disse Charlie, um colega do trabalho. De ninguém, não se preocupe – respondi. Logo em seguida retrucou: Quer sair com o pessoal hoje? Queremos ir àquela hamburgueria nova que abriu no sul da cidade. Pensei um pouco, mas acabei recusando, queria voltar para casa e descansar. Após algumas horas de trabalho, quando estava me preparando para sair outra colega apareceu, fazendo o mesmo convite para sair.

– Anna, faz mais de dois meses que você não sai conosco, poxa.
– Eu sei disso, Kris, mas não ando com muita vontade de sair – eu disse.
– Olha, o mundo não para e você também tem que se movimentar. Vai que um bonitão aparece por lá? Como dizia minha mãe, acaba sendo colírio para os seus olhos verdes.
– Você é uma piada, Kris. Pensarei na sua proposta – respondi.

Eu não tinha muita coisa para fazer em casa, apenas cuidar das roupas e arrumar algum cômodo que estivesse desordenado. Bem, acho que vou – pensei. Juntei-me a alguns colegas que estavam prontos e partimos para o lado sul da cidade. Por sorte o metrô não estava cheio e conseguimos chegar rapidamente no local após uma pequena caminhada. Abby’s não era um local imponente, mas tinha um ar muito aconchegante. Sentamo-nos ao fundo do restaurante, onde as oito pessoas pudessem ser acomodadas com bastante conforto. A decoração temática contava com itens de rock, de jogos e de carros. Ainda bem que eles haviam me trazido aqui, estava realmente contente, pensei. E o hambúrguer? Que delícia gastronômica, especialmente para mim, pois adoro um toque apimentado e acebolado. O dono do local acertou em cheio! Após quase uma hora notei a presença de um grupo de pessoas em uma mesa próxima à nossa. Não tive dúvidas e olhei para Kris, como se dissesse Vamos ao banheiro?. Trata-se de um momento reconfortante, pois além do trivial ainda retocamos a maquiagem, ajustamos a roupa, o cabelo e descansamos os ouvidos dos papos angustiantes de uma ou outra pessoa. Quando saímos do toalete aproveitamos para olhar ao nosso redor, como se fizéssemos uma varredura no local. A Kris olhou atentamente para um ou outro rosto, mas nenhum deles a chamou atenção. Quando passamos em frente à próxima à nossa senti um olhar em direção a mim. Fiquei atordoada quando o reconheci: era o rapaz da Starbucks. Assim que ele teve certeza que eu o havia notado, levantou-se e veio ao meu encontro.

– Que bom reencontrá-la aqui. Preciso lhe pedir desculpas.

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Publicado às 09/12/14 por em Contos e marcado , , , , .
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