DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C03P01. Sonho ou realidade?

Foi numa noite como outra qualquer que tudo aconteceu, que tudo começou. Estava prestes a deitar quando subitamente senti um calafrio percorrer meu corpo. Estranhamente, não era uma situação nova para mim. Já havia sentido, por diversas vezes, essa mesma contração involuntária se alastrar por todos os meus músculos. Olhei para os lados e nada de diferente observei. Havia uma leve brisa no ar, ainda que gélida. Longos meses de frio foram anunciados pelos noticiários, então a prevenção era o melhor remédio. De posse de um bom cobertor subi as escadas e segui em direção ao meu quarto. Deitei.

Por volta das três horas da manhã, não me recordo ao certo, ouvi um barulho estranho vindo do lado de fora. Abri os olhos e pela janela entreaberta reparei que havia clarões no céu, como se houvesse uma tempestade ocorrendo a muitos quilômetros de distância. Virei-me e continuei a dormir. Um tempo depois senti uma vibração relativamente branda vindo dos pés da cama. Quando novamente abri os olhos a vibração aumentou e senti uma pressão em meus ouvidos que retirou minha capacidade auditiva, deixando-me completamente surdo em instantes. Tentei levantar-me, mas meus movimentos foram impelidos. Minha respiração tornou-se anômala e entrei em pânico. Subitamente, antes mesmo que eu pudesse piscar os olhos, percebi um zumbido agudo e tudo voltou ao normal. Meu corpo foi liberto daquela pressão estranha e voltei a respirar normalmente.

Olhei para todos os lados e, ao mesmo tempo em que encontrava-me atônito, sentia-me desesperado. O que houvera acontecido? Fui em direção à janela e não percebi uma gotícula de água, muito menos raios, relâmpagos ou nuvens de chuva naquele imenso céu estrelado. Não havia nada. Era como se tudo tivesse sido fruto de uma alucinação bizarra, derivada de algum medicamento controlado. Eram quase seis horas da manhã e tinha que ter certeza. Desci as escadas e segui em direção à cozinha, procurando por um copo com água bem gelada. Ouvi o canto de alguns grilos do lado de fora e resolvi averiguar.

Senti um vento forte quando abri a porta e segui caminhando pela grama recém-cortada. Olhei para o céu e consegui avistar a Lua, que estava prestes a entrar em seu quarto crescente. Logo abaixo pude perceber Vênus, quase tão brilhante como um diamante no céu. Fiquei assim por alguns minutos, apreciando a vista e desejando chegar mais próximo às estrelas. Meu olhar estava cada vez mais fixo no céu que somente após alguns minutos que percebi o vento percorrer meu rosto e meu corpo. Estiquei um pouco os braços, levantando-os suavemente. E sorria, como uma criança que vidrada em frente à televisão. Quando me dei conta estava a mais de 7 metros do chão. Fiquei atônito e apavorado. Instantaneamente, entrei em queda livre. Desesperado, olhei para o céu e tentei liberar minha mente de pensamentos mórbidos, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Percebi que o efeito da aceleração gravitacional foi reduzido, fazendo com que eu tivesse uma queda brusca, mas amenizada, como se estivesse a apenas um metro do chão.

Olhei para minhas mãos e em seguida para meu corpo. Nada grave, senão um ou outro hematoma. Ainda assim, meu cérebro não conseguia processar o que meus olhos acabaram de presenciar. Bem, eu tinha as marcas em meu corpo com alguma comprovação. E se eu apenas tivesse tropeçado enquanto caminhava? Do jeito que sempre fui estabanado era bem possível. Mas tinha que ter certeza. Fiquei de pé e passei a mão no pijama, tirando um pouco da grama. Olhei para cima e pulei. Nada. “Estou ficando louco”, pensei. Olhei novamente para o céu e tentei esvaziar minha mente de qualquer pensamento. A partir do momento em que comecei a erguer os braços percebi novamente um pouco da brisa em meu rosto e, ao abrir os olhos, estava flutuando.

Em um misto de espanto e alegria, sorri. Olhei adiante, como quem quer ir mais longe, aumentando a velocidade. Segui. Consegui atingir uma altura ainda maior que a primeira vez e estava em movimento. Segui em direção às casas vizinhas e aos campos cobertos por árvores baixas. Ainda não conseguia acreditar, porém estava feliz demais para criar caraminholas em minha cabeça. De repente gritei, sorri, como uma criança que acaba de encontrar a Terra do Nunca. Percebi o barulho de alguns animais e temi a presença de pessoas que pudessem ter recém-acordado. Essa preocupação fez com que a velocidade e a altura diminuíssem, como se eu fosse novamente entrar em queda livre. Respirei fundo e fechei os olhos, de modo a concentrar-me naquilo que estava fazendo e assim ganhei estabilidade. Consegui ficar parado no ar, flutuando.

De repente uma visão inesperada: o sol estava surgindo e lançando seus primeiros raios. Olhei para todos os lados e me emocionei. Via minha casa tão pequena, os pássaros voando e algumas nuvens próximas a mim. Estava a mais de 200 metros do chão e os ventos já estavam mais fortes. Ao olhar para o sol reluzente, senti-me parte da natureza. Sem entender patavinas sobre o que estava acontecendo comigo, mirei um ponto mais distante e segui. Nem preocupei-me por estar usando um simples pijama. Encontraria alguém que também estivesse voando? Tudo era vívido, não poderia ser sonho, somente realidade. Apenas voei.

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Um comentário em “C03P01. Sonho ou realidade?

  1. Lucius Mestrius Plutarchus
    03/02/14

    Que experiência, hein? Tenho experiências assim, não tão fortes como vc relatou, mas bem parecidas, talvez pq já me familiarizei com isso. No meu caso, chamava só de sonho e não dava muito crédito, hoje esses sonhos tem sido cada vez mais conscientes, mesmo eu “inconsciente” (sono). Se torna mais interessante ainda quando vc começa a pesquisar sobre isso, as experiências se tornam divertidas, de uma certa forma. Good 4 u! 😉

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Publicado às 03/02/14 por em Contos e marcado , , , , , , , .
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