DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C01P03. Aqueça meu coração

Imagem por Khoi Nguyen

Domingo, 15 de Setembro de 2013. Passam das 06:00 horas da manhã.

Sempre fui de acordar cedo, sem qualquer problema. Contudo, confesso que espantei-me quando abri os olhos e percebi a presença de Felipe em minha cama. Quem tem sono leve pode sentir algum incômodo com alguém tão próximo. Mas, sinceramente, não era o meu caso. Sempre tive Felipe como um grande amigo, pois o conheço há mais de 10 anos. Somos amigos de infância, daqueles que aprontam desde pequenos em toda a vizinhança. Vê-lo aqui, ao meu lado, fez com que eu refletisse mais sobre minha vida. Era uma situação inusitada para mim.

Enquanto ele dormia, levantei e fui em direção ao banheiro. Fitei-me no espelho como quem observa alguém estranho e percebi que não me conheço como imaginava. Com a água gelada em meu rosto, um arrepio estranho cruzou meu corpo. Não sabia dizer se era uma sensação boa ou ruim. Abri as torneiras da banheira de modo que a proporção de água quente fosse bem maior que de água fria e logo em seguida despejei uma grande medida de espuma para banho. Enquanto isso, aproveitei para buscar algumas roupas e toalhas extras, uma vez que não imaginava ter alguém em minha cama esta noite. Felipe dormia profundamente.

O sol manifestava os primeiros raios dentro do quarto quando entrei na banheira. A água estava no ponto que desejava e a espuma resplandecia o ar com seu perfume. Cobri todo meu corpo, apoiando-me de tal forma que pudesse relaxar completamente. Tantos pensamentos rondavam minha mente naquele momento. A maioria era boa, mas não podia deixar de pensar em situações inúteis ou estapafúrdias, cujo resultado me desgastaria ainda mais e traria de volta a depressão de outrora.

De repente começo a ouvir a suave voz de Laurena Segura. Fazia tempo que não ouvia Permafrost. Fazia mais de uma hora que estava ali e não havia me dado conta. Ouço passos pela casa. Em uma fração de segundo tive um pensamento ruim. Definitivamente, não era mais comum para mim a presença de mais alguém em casa.

– Felipe, estou na banheira.

Nenhuma resposta. Repeti, desta vez aumentando um pouco o tom de minha voz. Novamente, nenhum retorno. Resolvi levantar-me, titubeando e aproximando-me da toalha que estava mais próxima. Pisei em falso, com espuma em meu pé esquerdo e caí, como se fosse uma imensa jaca que despenca do galho e não encontra nada senão o chão rígido. Já estava a ponto de proclamar palavras profanas quando ouvi o barulho da porta bater. Agarrei-me no batente da banheira e consegui apoio suficiente para me levantar. Neste momento Felipe entra no banheiro e se assusta com a cena que vê, pois havia se formado um hematoma em minha perna e no joelho esquerdo um pequeno corte permitiu que um pouco de sangue escorresse.

– O que foi? O que aconteceu aqui?

– Calma Felipe, não se preocupe, foi um pequeno descuido. Fiquei tempo demais na banheira e minhas pernas devem ter ficado dormentes.

– Mas sua perna está roxa! Precisamos ir ao hospital agora para ver melhor o que houve! Estou aqui para cuidar de você.

– Felipe, calma. Estou bem. Na realidade, estou bem porque você está aqui. Aliás, tudo é novidade e ainda não acredito que você esteja aqui. Mas saiba que estou muito contente.

– Eu acabei acordando mais cedo do que o costume. Talvez porque tenha percebido que você não estava mais na cama. Quando lhe vi na banheira descansando resolvi cuidar do nosso café da manhã. Deixei tudo pronto, liguei o som e fui à padaria buscar pães novos.

– Tudo fez sentido agora. Mas tranquilize-se, foi um corte pequeno que logo cicatrizará. O mais importante para mim é você estar aqui.

De repente um sentimento bom encheu meu coração de felicidade e alegria. Todas minhas angústias, ansiedades e tristezas foram embora. Estranhamente, era como se eu estivesse renascendo. Sentir o abraço apertado e carinhoso de Felipe naquele momento era tudo o que eu queria e precisava. O calor de seu corpo transmitia a mim tranquilidade e paz de espírito.

– Claro que estou aqui! E se você permitir estarei sempre!

Eu não poderia fazer qualquer previsão do futuro – e, sinceramente, nem me atreveria. Aliás, predizer ou tentar adivinhar o que aconteceria era como uma aposta de corrida de cavalos. Haveria somente um ganhador, mas muitos perdedores. Eu não queria, naquele momento, ser o bilhete perdedor. Eu não queria sentir o peso de mais uma frustração amorosa. Não queria pensar em qualquer coisa negativa que pudesse remeter ao relacionamento que tive com Caio. Se a História existe para nos ensinar algo, que desta vez seja diferente.

– Apenas me abrace forte. – disse para Felipe.

Passavam das 08:00 horas quando nos sentamos para tomar café da manhã. O sol brilhava forte e o aroma de pão com manteiga rondava o apartamento inteiro. O dia começava com Bubbly, de Colbie Caillat, e trocávamos olhares a todos os momentos. Ríamos do episódio que acabara de ocorrer e do pequeno surto psicótico que tive ao imaginar que não havia ninguém no apartamento. Sentia segurança em suas palavras quando dizia que se preocupava comigo. Foi quando comecei a me preocupar com ele também.

– Sempre me preocupei … mas você nunca estava disponível.

– Então fique tranquilo, Felipe. Estou aqui, de alma e coração abertos. Para sempre.

– FIM –

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Publicado às 15/12/13 por em Contos e marcado , , , , .
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