DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C01P02. Depois do café, pizza

Sábado, 14 de Setembro de 2013. São 22:14 horas.

– Felipe? Tudo bem? Estou retornando sua ligação só para dizer que não sairei hoje. Estava tomando banho quando você me ligou e ainda tive que atender o porteiro logo em seguida. (…) Sim, pedi uma pizza. (…) Não sei, amanhã você me conta como foi a noite.

Já faz cinco meses que falei com Caio, além dos outros dois meses desde o encontro anterior. Aquela noite fatídica em que tudo terminou, em caráter definitivo. Uma noite chuvosa, que me fez perder o amor pelo café. A partir daquela noite toda vez que vejo um relâmpago meus joelhos tremem.

Ao todo foram seis anos de relacionamento, considerando algumas idas e vindas. Separamo-nos apenas duas vezes. A primeira não durou uma semana, foi uma tola crise de ciúmes. A segunda, contudo, representou o prelúdio do nosso término. Em nosso último encontro Caio disse que não queria designar culpados, nem inocentes, mas tenho certeza que tive plena culpa no cartório. A consequência dos meus atos são evidentes: nosso namoro acabou e não há sequer perspectiva de retorno.

Ainda não consegui tirar a tristeza do meu coração. Sei que deveria ter aprendido com tudo o que aconteceu e seguir em frente. E hoje eu entendo plenamente a posição de Caio quando decidiu terminar tudo. Os últimos meses foram carregados de emoções fortes e traumáticas. Refletindo agora, na sala de estar e com um pedaço de pizza na mão, reconheço e respeito a atitude de Caio. Se eu teria feito diferente? Certamente que sim. Bom, cada indivíduo é diferente do outro e justamente aí reside a complexidade humana.

Porém, por mais que eu compreenda o pensamento dele, ainda não consegui preencher o vazio que habita meu coração. Um sentimento gélido e pontiagudo, que me causa dor a cada vez que penso em tudo o que aconteceu. No trabalho, nem as reuniões mais cansativas conseguem mudar meu humor. Tampouco os almoços com alguns colegas, que deveriam ser animados e badalados.

Em casa, vários ambientes trazem lembranças do Caio. Na sala, há alguns retratos na parede e objetos de decoração escolhidos por ele, todos comprados nas viagens que fizemos pelo Brasil e pelo mundo afora. Na cozinha, o que mais me chama a atenção é um conjunto de facas que ele adorava utilizar. No quarto ainda restam uma camisa escura e a escova de dentes que está na pia do banheiro. Ele me devolveu a minha foto 3×4, mas parece ter se esquecido totalmente da camisa que está comigo.

Talvez eu devesse jogar tudo fora. Não sei. Revejo fotos que estão no computador e algumas lágrimas percorrem minha face. Perdi as contas de quantos lenços de papel já comprei. Perdi as contas de quantas noites em claro passei, pensando em tudo o que aconteceu. De repente o telefone toca. São quase meia noite.

– Felipe, é você de novo? (…) Não, a pizza não acabou. (…) Estava vendo um seriado sobre criaturas extraterrestres. (…) Não, não quero trocar de roupa. Amanhã conversamos, pode ser?

Desligo o celular e em questão de segundos a campainha toca. Em meu rosto percebía-se uma enorme expressão de dúvida. Ao abrir a porta não pude conter um sorriso singelo, mas verdadeiro.

– Vim cuidar de você.

– Mas Felipe, era pra você estar na rua, divertindo-se com seus amigos.

– E você também, oras. Cansei de suas recusas em praticamente todos os fins de semana e não suporto mais ver você chorando por todos os cantos, como se a vida não fizesse mais sentido. Eu acompanhei de perto tudo o que aconteceu entre você e o Caio, mas já acabou, chega!

– Eu não tenho palavras para agradecer e expressar o quanto fico feliz.

– Não precisa dizer nada. Agora desliga essa televisão e esquenta a pizza que eu estou morrendo de fome.

Rapidamente desliguei o aparelho e corri para a cozinha. A casa estava uma bagunça. Ele tinha razão, eu estava à mercê da minha própria tristeza e da solidão. Não queria mais contato com ninguém. Até porque muitos amigos do Caio são meus amigos, logo a probabilidade de revê-lo seria grande ao sair com o grupo. Só então me dei conta que chovia e não havia qualquer barulho lá fora, como se ninguém quisesse ter saído naquela noite.

– Desde aquele café você chegou a vê-lo novamente?

– Não. Relutei muito para não mandar mensagens, emails ou mesmo ligar para ele. Acho que consegui, finalmente, distanciar-me dele.

– Fez bem. O Caio é um cara legal. Vocês formavam um ótimo casal, mas depois do que aconteceu, foi melhor. Olha, como seu amigo serei sincero: você errou. Traí-lo não foi algo digno de aprovação. Foi uma situação vexatória para ele. E para você também, claro. O problema é que ele revidou com a mesma moeda, traindo você justamente com alguém que não devia.

– Como se existisse alguém com quem ele pudesse fazer isso e sair ileso…

– Pode ser. Mas vocês não agiram corretamente um com o outro. E ambos saíram feridos e magoados dessa relação. Só que já deu, o tempo está passando e a vida deve seguir.

– Só que não tenho disposição nenhuma para fazer qualquer coisa. Além do mais, carrego um sentimento de culpa enorme pelo que fiz. E se eu repetir? Antes do Caio fizeram comigo e eu pensava que com ele seria diferente. Até eu fazer…

– Pare de se prender ao passado! O discurso começa a ficar chato! Toda vez que ligava pra você nos últimos dias você respondia com as mesmas frases. Por isso resolvi vir aqui hoje. Alguém precisa fazer com que você acorde desse ostracismo e saia do coma induzido que você se colocou.

De repente Felipe se levanta e começa a tirar todos os retratos que estavam espalhados pela casa, colocando-os dentro da caixa em que havia apenas algumas sementes de azeitonas da pizza sabor calabresa. Logo em seguida ele abre as cortinas da janela, permitindo que a lua cheia ilumine a ponta do tapete no centro da sala.

– Você deve tirar as lembranças constantes do Caio. Você sabe que elas não lhe fazem bem. Sei que ainda tem muitas fotos que tirou com ele durante as viagens que fizeram. Qualquer foto em que ele esteja, apague; o resto, deixe.

– Você sabe que não farei isso… só de pensar meu coração se parte e os olhos começam a lacrimejar.

– Pode parar! Eu mesmo farei isso, em outro momento. O que mais terei que fazer pra você se ver livre das memórias dele?

– Não se preocupe tanto Felipe, uma hora irá passar. Agradeço sua visita, mas você deveria estar na balada, junto com seus amigos, paquerando e se divertindo.

– Para encontrar aquele que causa tanta tristeza a você? Não. Isso não me agrada nem um pouco. Vim aqui por vontade própria e prefiro estar com você a sair e ver o Caio com outra pessoa.

– Como assim? …

– Pare de pensar nele, por favor. Olhe para mim…

E de repente ele segurou meu rosto com suas mãos fortes e beijou-me como há muito ninguém fazia. Seu toque era suave, mas ao mesmo tempo firme, deixando-me em total perplexidade. E desejei que este momento não acabasse nunca.

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Publicado às 08/12/13 por em Contos e marcado , , , .
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