DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

C01P01. Pausa para um café

Pausa para um café

Sábado, 13 de Abril de 2013. São 19:20 horas.

– Ainda não entendi porque me chamou aqui.

– Eu precisava ver você, falar com você.

– Você disse exatamente a mesma coisa da última vez que nos encontramos. Daquela vez foi por acaso, enquanto estava absorto em certos devaneios lendo o jornal do dia. Sinceramente, não queria ver você novamente. Você sabe muito bem o que aconteceu e o que pode acontecer.

– Talvez. Você pensa demais, Caio. Você sabe o quanto eu gosto de você, da sua companhia e de estar ao seu lado.

– Eu imaginei que você teria me chamado aqui para devolver todas as coisas que ainda estão com você. Já tivemos essa conversa há mais de dois meses e você não mudou seu discurso. Você reclama sobre certas coisas de mim, mas age exatamente da mesma forma todas as vezes.

Por um momento ambos ficam em silêncio. Os olhares se cruzam, mas ninguém tem certeza do que falar. Os corações batem em ritmos descompassados, sendo possível perceber a tensão ali instaurada. Há muitas pessoas sentadas em outras mesas. A música ambiente está em baixo volume, sendo possível ouvir a suave voz da cantora Tabatha Fher. O garçom pede licença, entrega o cardápio e oferece a sugestão do chef, que virá acompanhada de um bom vinho tinto. Novamente os olhares se cruzam.

– Obrigado, mas eu desejo apenas um café puro, nada mais. – diz Caio.

– Para mim também, com adoçante, por favor.

O garçom recolhe o cardápio e manifesta a disposição para ser chamado a qualquer momento. Fora do café a chuva demonstra sua presença, ainda que de modo brando. Caio abre a carteira e retira de lá uma foto 3×4, em bom estado de conservação.

– Aqui está. Esta é a última lembrança física que poderia ter de você. A única que eu poderia carregar onde quer que eu estivesse e que eu nunca havia retirado da minha carteira desde o dia em que peguei escondido de você.

– Não faça isso Caio. Eu já lhe pedi, sei que podemos reatar e voltar à vida que tínhamos antes de …

– Antes de tudo ter acontecido? Antes de termos feito todas as besteiras possíveis? Não me peça para apagar tudo que aconteceu como se fosse algo simples. Não me peça para esquecer o que aconteceu se ainda sofro com as consequências dos nossos atos.

– … tudo acontecer. Eu sei que foram dias difíceis. Você acha que eu não sofro com tudo o que aconteceu? Quantas noites passei em claro pensando em você e o quanto meu coração sentia sua falta? E, mesmo assim, o quanto me doía sentir saudades e ao mesmo tempo raiva de tudo que havia acontecido? Sim, eu quero apagar tudo o que passamos para voltar a ser o que éramos. Você sabe que podemos ser felizes novamente. Juntos, lembra? Desde quando começamos?

– Você sabe que eu me lembro. Conquistamo-nos mutuamente, diariamente. Mensagens, ligações, encontros, não havia nada de errado. Mesmo as mais simples adversidades que qualquer casal poderia passar nós superamos. E eu também pensava estar no controle da situação desta vez. Foi um terrível engano.

De repente alguns relâmpagos surgem no céu, anunciando o incremento da chuva. Ao fundo se percebe um aroma denso e aveludado, que lembra amêndoas e notas achocolatadas: o garçom está com uma bandeja e as duas xícaras de café. Trata-se de um café harmônico, com amargor elevado, encorpado e com baixa acidez. Simplesmente perfeito para uma noite chuvosa.

– Você bem sabe o quanto me arrependo de tudo que fiz e o quanto já lhe pedi perdão. Também entendo que você não foi culpado pelas coisas que fez e …

– Eu nunca quis encontrar culpados, nem inocentes. Não gosto de rótulos, de definições. O que aconteceu prescinde de descrições, justamente porque houve consciência de atos e fatos. Entendo seu arrependimento e seu pedido de perdão. Mas, como já lhe disse mais de duas vezes, não consigo ir adiante. Preciso virar essas páginas, fechar esse livro e colocá-lo em uma caixa.

– Caio, por favor. Vamos para minha casa, em um ambiente mais aconchegante, onde possamos conversar com mais calma.

– E repetir o que fizemos da última vez, quando tocamo-nos e cedemos à tentação da carne? Sabe… não quero ser puritano, mas longe de mim ser leviano. Coloquei uma pedra nesse assunto e, desculpe a franqueza, nem os lençóis serão testemunhas de qualquer carícia nossa.

– Você não pode fazer isso comigo Caio… o que você quer, que eu me ajoelhe a seus pés suplicando para voltarmos?

Neste momento as luzes do estabelecimento são apagadas. Não há mais agudos de Alanis Morissette. Por um momento até o aroma do café não é percebido no ambiente. Alguns clientes levantam-se e aglomeram-se no caixa para fecharem suas contas. Na mesa 9, ambos continuam sentados, imóveis e inertes. Os clarões formados pelos trovões ao mesmo tempo em que iluminam as paredes também causam pânico aos clientes.

– Perceba o mal que estamos fazendo a nós dois… quero evitar que mais feridas sejam abertas, que escaras se formem e que ambos não tenham mais forças de superar esse momento. É difícil, não negarei. Porém, é necessário. Acredite em mim, sei que será melhor para nós.

– Você diz isso para se proteger, formando conclusões precipitadas sobre minhas vontades e meus pensamentos.

– A verdade é que nós dois não mudamos nossas posições. Você quer retomar o relacionamento que tivemos como se nada houvesse acontecido e eu afasto de você qualquer possibilidade de concretização dos fatos. Entenda, de uma vez por todas, não há volta. Não há retorno. Precisamos seguir em frente.

Caio tem em seu rosto a expressão fechada, com os olhos fixos e o semblante sério. Estava cansado dessa situação, de tantas idas e vindas. Não poderia deixar que seu coração se frustrasse ainda mais, permitindo amar alguém que não lhe faz bem. A energia elétrica é restaurada e alguns clientes decidem voltar às suas mesas, enquanto aqueles que já haviam pago suas contas decidem ir embora. Com a mão repousada na mesa, Caio sente a pressão firme dos dedos macios e aquecidos.

– Eu não sei se conseguirei suportar sua falta. Todos os dias lembro-me do café da manhã que servia em nossa cama, dos momentos de alegria que passamos quando limpávamos e arrumávamos os móveis da nossa casa e até mesmo quando tínhamos tarefas difíceis na casa dos seus pais. Quando vejo nossas fotos, recordo-me da primeira viagem que fizemos… que bagunça. Lembro também (…)

– Por favor, não. Se quiser manter as lembranças de um tempo que foi bom, tudo bem, mas faça isso para você. Não queira usar o passado para modificar o presente. Eu não quero ser afetado pelo passado nesse momento… eu não me permito ser magoado novamente.

– Você tem certeza disso, Caio?

– Nunca tive tanta certeza em minha vida. E, sinceramente, desejo que você seja feliz.

E então Caio levanta e segue em direção ao caixa, deixando na mesa um vazio tão grande quanto o que ficou no coração daquele que estava esperando ansiosamente por uma notícia alvissareira. O céu estava escuro e o clima bem frio, assim como o café que havia sobrado no fundo da xícara. Ao som de Gary Moore – “Moving on“, muitos clientes chamavam o garçom por mais uma xícara de café. Ou de um chocolate quente, talvez.

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Publicado às 06/11/13 por em Contos e marcado , , , , .
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