DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

Uma aventura solitária

Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007.

06:00 AM. Acordei disposto a realizar um evento* diferente em minhas férias anuais: resolvi isolar-me do mundo, por uma semana, sem qualquer intervenção humana e/ou tecnológica. Bem, nos casos em que fosse realmente impossível teria que usar os serviços minimamente, sem comprometer minha meta. Nos 30 dias de vacância habitual, procurava por uma experiência diferente, sem ninguém ao meu lado para perturbar-me, dizer o que deveria ser feito ou o que fiz de errado. Se eu acreditasse nos ensinamentos budistas do ramo Therevada poderia comparar minha aventura à busca quase incessante pelo nirvana, escapando do ciclo de sofrimento do renascimento.

07:30 AM. Enquanto preparava o café, contei à minha esposa sobre minha façanha recém pensada. Confesso que ela ficou preocupada num primeiro momento, mas expliquei que seriam poucos dias e, mesmo assim, deixaria o celular ligado, apto a receber ligações de emergência. Pedi, obviamente, que avisasse aos parentes, vizinhos e amigos próximos para que não me ligassem, pois não os atenderia. A única chamada permitida era dela, Olívia. Malas prontas, peguei tudo que acreditava ser necessário e organizei dentro do carro, de maneira tão compartimentada que alguns diriam ter sido resultado de distúrbio obsessivo-compulsivo.

10:30 AM. Depois de muitas curvas sinuosas e alguns buracos na estrada, cheguei ao meu destino. Havia herdado dos meus pais uma casa enorme, situada próxima a um rio, em um lugar bucólico e muito bonito. Passei grande parte de minha infância lá, então conhecia cada parte daquela casa como a palma de minha mão. Desci do carro e caminhei em direção ao rio. Em minha mente só ouvia os seguintes pensamentos: livre, leve e solto. O sol forte me impedia de desfrutar com mais calma esse momento, então tive de retirar todo o material que havia trazido no carro. Aproveitei para abrir as janelas e permitir que a iluminação natural adentrasse todos os recintos do casarão. Ao passear em cada cômodo as memórias da família vieram à tona, tanto para bons momentos quanto para aqueles que penamos em esquecer.

Natureza - Casa à beira do rio

11:00 AM. Com tudo organizado, percebi que a hora do almoço estava próxima e resolvi fazer algo bem apropriado para o local: um churrasco. Um bom pedaço de carne e um pouco de arroz eram suficientes para mim. Com uma pequena panela em mãos e o fogo devidamente aceso, só faltava esperar. Aproveitei para degustar bons goles de um whisky, estilo cowboy. Fiquei sentado em uma cadeira bem confortável, à beira do rio, enquanto admirava o canto dos pássaros. Enquanto a carne assava pensei sobre o que já havia feito em minha vida e o que ainda poderia realizar. Por conta disso quase deixei o arroz queimar.

01:00 PM. Após o almoço, nada como um cochilo em uma rede, enquanto a brisa nos refresca e descansamos tranquilamente. Sem televisão ligada; sem netos berrando para lá e para cá; sem filhos reclamando de suas vidas, de seus trabalhos ou de seus vizinhos. Tudo estava tranquilo, exatamente como eu queria.

03:00 PM. Como uma criança que desperta de profundo sono levantei-me, pensando o que viria a seguir. Aproveitando que ainda estava claro, decidi trocar de roupa e tomar um banho no rio. Muito tempo havia passado desde a última vez. Recordei do quanto brinquei com meus irmãos e alguns primos naquele rio – éramos muito felizes.

05:00 PM. Senti ter perdido a noção do tempo, já que o sol havia sumido enquanto voltava para casa. Na ânsia de não depender da tecnologia, acendi uma lamparina e coloquei-me para fora da casa, carregando jornais, livros e um bom charuto. Alguns minutos depois senti picadas de pernilongos e resolvi queimar um pouco de álcool para afugentá-los – não deu certo. E quase queimei minha perna. Menos de uma hora e já estava dentro de casa, olhando para o teto e pensando no que fazer. Preparei um lanche rápido e resolvi deitar cedo para aproveitar o nascer do sol do dia seguinte.

Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007.

05:23 AM. Sem despertador, acordei com o barulho de alguns animais lá fora. Coloquei água para o café e preparei a mesa. Poucos minutos depois, com uma xícara bem quente de café nas mãos, fui agraciado com o nascer do sol. Por mais simples que seja, é uma experiência magnífica. Troquei de roupa e saí para caminhar. Somente quando voltei que me dei conta que os passeios eram muito mais divertidos quando ia com meus familiares.

Natureza - Limpando o quintal

09:40 AM. De volta, resolvi fazer um lanche. Sentei na varanda e peguei uma revista para ler. Nenhum artigo interessante. Olhei para fora e peguei o rastelo para retirar as folhas que haviam caído no chão. Puxa aqui, varre acolá e de repente minha canela é atingida em cheio. Esbravejei de tal forma que os pássaros se assustaram e voaram rapidamente, emitindo sons que até pensei que fossem risadas da minha fatalidade. Sem minha esposa para ajudar-me passei bons minutos procurando pela casa os medicamentos e materiais adequados para estancar o sangue. Bem, fatalidades acontecem.

11:25 AM. Comecei a preparar o almoço, mas não havia novidade. Logo servi-me de um copo cheio de whisky e coloquei outro pedaço de carne na brasa. Havia tanto silêncio no ar que meus pensamentos pareciam berros. Tentei esquecer, contemplando aquele clima bucólico e pitoresco. Subitamente olhei para meu celular: nenhuma chamada recebida, nem sequer uma SMS. O sol torrencial me impedia de caminhar, então resolvi encher a banheira e me jogar lá dentro, na tentativa de livrar-me do calor. Não percebi, mas acabei cochilando.

3:07 PM. Olhei no relógio e me espantei quando vi os números. Aproveitando que o tempo estava nublado, resolvi sair de casa para caminhar novamente. Não encontrei com vizinhos, tampouco percebi carros passando enquanto caminhava. Até mesmo pequenos comércios que costumavam funcionar estavam fechados. Por  alguns segundos imaginei uma cena típica dos filmes de terror da década de 80. Correndo, voltei para o casarão e percebi o quão solitário estava naquele recinto.

4:12 PM. O céu começou a escurecer. Olhei para todos os lados e pensei “não dormirei aqui hoje!”.

7:51 PM. Depois de arrumar as coisas com um pouco de pressa, peguei o carro e finalmente cheguei em casa. Logo que entrei abracei minha esposa, dizendo o quanto a amava e o quanto a queria por perto. Não entendi a cara de preocupação que ela fez naquele momento, mas pedi desculpas pela ideia maluca que tive. Contei sobre as últimas horas e condescendi: qualquer pessoa precisa ter seu tempo, para fazer o que quiser, quando quiser e como quiser.

Os indivíduos precisam de espaço para curtirem como bem quiserem, para se encontrarem com seu eu interior e refletir sobre suas vidas. Porém, ninguém consegue viver isoladamente, sem qualquer contato com outrem. Mesmo que não percebamos, diariamente temos contato com pessoas que às vezes passam despercebidas aos nossos olhos, mas que merecem atenção como qualquer outra.

Se analisarmos a rotina normal de um estudante, por exemplo: pela manhã conversa com seus familiares enquanto toma café; durante as aulas tem contato com os colegas de classe, com professores, com funcionários da escola; se pratica alguma atividade posteriormente, como inglês, educação física, etc, ainda encontrará com mais pessoas ao seu redor e depois voltará ao convívio familiar. Para adultos, que estejam na faculdade e tenham um trabalho, as chances de contato com outras pessoas cresce exponencialmente.

Resumindo, ninguém consegue viver só. Qualquer pessoa precisa de convívio com outras pessoas, seja em ambiente familiar, laboral ou educacional. E se você estiver se sentindo sozinho neste exato momento, arrume-se, passe um bom perfume e vá passear. Procure uma distração. Faça um curso que desejava há algum tempo. Inicie um treinamento na academia. Visite familiares e amigos. Saia de casa e divirta-se!

*relato de um indivíduo que não quis ter seu nome revelado

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Um comentário em “Uma aventura solitária

  1. HoganLeMalin
    05/12/12

    Um evento??

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Publicado às 05/12/12 por em Reflexão e marcado , , , , , .
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