DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

Praticando o desapego

Em tempos modernos, percebo uma infinidade de situações que anteriormente não existiam ou, pelo menos, aconteciam de forma branda e não divulgada. O que é esse tal desapego, tão atual, tão necessário e imprescindível à vida humana que tanto se comenta? Quem estabelece o percentual de desapego e, mais importante, a quê? É claro que tive de recorrer ao dicionário para uma abordagem mais clara. Substantivo masculino, significa a falta de apego, de afeição, de amor; desinteresse, indiferença. A prática do desapego possui duas definições: desapegar e despegar, cujo significado remete à desunião, à separação; a tornar menos afeiçoado; ao afastamento e ao descolamento.

Fica claro que a prática do desapego refere-se à remoção de determinado sentimento, realizada por indivíduo devidamente consciente do seu ato, sobre algo específico. Cheguei a ponto de ler um ou outro texto pela Internet para tentar entender o que seria o desapego, se há alguma explicação lógica e/ou literária para tal. Muita autoajuda, na verdade. O desapego é a mais nova forma para livrar-se de algo.

Considerando o que se vê na rede televisiva e nas mídias sociais, o desapego está diretamente ligado às relações amorosas vivenciadas pelas últimas gerações. Antigamente, os casamentos eram arranjados quando os envolvidos ainda eram pequenos, sem qualquer poder de decisão quanto ao próprio matrimônio. A relação, fruto da decisão de outros, poderia ser boa e duradoura, com a perpetuação da espécie por diversas gerações. Porém, essa união poderia ser ruim e, neste caso, a mulher via-se submissa ao marido e nada poderia fazer perante à sociedade. Importava, neste caso, a sobrevivência e o amadurecimento dos filhos, para que eles pudessem viver sem que a estória se repetisse.

A situação atual é bem diferente de séculos passados: tanto homem quanto mulher estão em igualdade de direitos, sejam eles positivos ou negativos para a relação. Se um dos dois sente-se traído, o troco é dado na mesma moeda. No caso de relações que terminam bem, isso ainda é pouco. Obviamente há casos muito piores, quando ocorre o extermínio de uma das partes (incluindo qualquer um que se oponha à situação).

O desapego possibilita, de maneira rebuscada e formal, que alguém deixe de gostar de outrem em poucos minutos, como se nada houvesse ocorrido até então. Não quero dizer aqui que alguém deve sofrer após o término de um relacionamento. Primeiro porque ninguém deve fazer com que outra pessoa sofra; mas, caso tenha feito, que possua o mínimo de decência para pedir perdão pelo ato praticado. O que verdadeiramente percebo é a exacerbação do desapego, de forma a banalizá-lo e remover qualquer crédito positivo que ela tem. Percebo, a atribuição ao desapego de proporções maiores que as reais, extrapolando para qualquer área e/ou assunto.

O que muito se pratica com o desapego é o sentimento de superioridade do ser humano ante qualquer outra coisa, tenha ela vida ou não. Uma abjeção, na realidade. Se homens e mulheres querem direitos iguais devem ser lembrados que possuem deveres também iguais. Mas, então, existe algo de positivo na prática do desapego? Listei alguns pensamentos que podem ser praticados por qualquer um para você se livrar daquilo que lhe faz mal: primeiro, não precisa matar ninguém.

a) Pessoas: se alguém lhe fez algo que você não gostou, vá diretamente à pessoa e converse sobre a situação. Exponha suas razões para que os atos praticados tenham provocado determinado sentimento. Caso nada disso funcione não procure mais essa pessoa, pois não há forma de haver uma relação sadia se um dos lados sente-se ferido e/ou magoado. Enquanto não houver uma conversa sincera entre as partes, dificilmente haverá solução. Um ponto importante: a possibilidade aqui existe para qualquer pessoa, não necessariamente sobre alguém com quem você tenha se relacionado amorosamente;

b) Objetos pessoais: os primeiros nesse item são aqueles oriundos de relacionamentos. Você pode querer guardar uma carta de um(a) ex-namorado(a) especial, mas certamente jogará fora um tíquete de cinema de alguém que lhe traiu com outro(a). O desapego para objetos significa retirar qualquer lembrança desagradável e/ou saudosista que não lhe faça bem. Significa, também, trocar um móvel antigo por um mais novo ou, então, ficar sem o móvel. É doar aquele gigante urso de pelúcia a uma criança carente. É curtir por um determinado tempo uma caixa de metal que continha um panetone e dar ao vizinho, com um bolo feito por você, em sinônimo de receptividade e amizade;

c) Comportamentos: e, talvez a parte mais complicada, o desapego de determinados comportamentos. E os sete pecados capitais não são os únicos na lista. Há que se livrar de pensamentos e ações que possam aviltar e denegrir o ser humano; que causem dano a outrem; que impeçam os indivíduos de evoluir. Atitudes que auxiliam nesse processo podem ser a mudança da rotina, autoanálise e, principalmente, o incremento da educação e do nível cultural do ser humano.

Praticar o desapego, portanto, nada mais é que retirar do corpo, da alma e das esferas físicas, aquilo que não lhe faz bem ou não trará nenhum benefício a longo prazo, respeitando-se o próximo e a si mesmo. Acrescentaria que o desapego está ligado à abnegação despretensiosa, quando nos libertamos de determinados objetos ou pessoas sem maldade ou depósito de mágoas. É viver de forma mínima, porém intensa e completa, com o que e quem lhe faz feliz.

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Publicado às 22/08/12 por em Reflexão e marcado , , , , .
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