DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

Saudades, sim.

O carnaval de 2012 foi recheado de coisas boas e ruins, como todo ano. Há aqueles que aproveitaram ao ponto de atingirem amnésia alcoólica e aqueles que descansaram o suficiente – ou pelo menos tentaram – para voltar às atividades rotineiras sem sinais de estresse. Independente da situação em que você se encontre agora, venho para tratar de um assunto que tem ligação com o carnaval, mas sua abrangência é deveras maior.

Partimos do pressuposto que saudades remeta à melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Intimamente ligada a assuntos românticos, o termo saudades é aplicado ao indivíduo que nutre sentimentos à pessoa amada – o âmbito de atuação pode ser entre pais e filhos, irmãos, amigos e, obviamente, casais.

Então, eu pergunto: você sentirá saudades do carnaval de 2012? Do que, mais especificamente? É natural que tenhamos saudades daquilo que foi bom; do que tenhamos adquirido experiências positivas para nossas vidas; do que gostamos e pretendemos repetir. E cada um teve, de acordo com suas possibilidades, uma experiência diferente. Muitos viajaram (como é de se esperar); outros curtiram com amigos em festanças na rua ou então nas casas alheias; uns passaram em casa curtindo a família e descansando e muitos outros trabalharam. Aliás, não sei se a quantidade de pessoas que trabalharam agora foi maior do que no Natal e Ano Novo. Enfim, teve folia para todo mundo aproveitar como pode.

Mas um grande ponto que gostaria de desvendar é: é possível sentir saudades do que não foi vivenciado? A Internet possibilita aos seus usuários vivenciar uma infinidade de emoções e sentimentos, tais como a alegria de assistir a um filme; palpitações ao ouvir músicas de sua banda favorita, ansiedade ao pesquisar imagens de paisagens, artistas e assuntos impróprios a menores de idade; satisfação ao conseguir reproduzir uma receita culinária; tristeza ao iniciar um trabalho acadêmico que terá mais de 200 páginas; inquietude ao ver vídeos do YouTube; e, principalmente, as angústias amorosas de todo ser que deseja relacionar-se com alguém. Parece óbvio chegar, novamente, às relações amorosas entre as pessoas, mas, é a verdade.

Sendo assim, é possível sentir saudades de alguém sem que haja uma relação previamente consolidada? PlatãoWilliam Davenant estabeleceram o conceito do amor platônico, por meio do qual um indivíduo alimenta um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Sentir saudades em tal situação é tão fácil quanto a própria existência platônica em tela.

Mas, se o sentimento em análise não tiver sede em Platão, com qual base ou justificativa o indivíduo teria para sentir saudades daquilo que ainda não vivenciou? É praticamente o mesmo que alguém ter saudades de Dubai antes mesmo de ter viajado. É com base em experiências semelhantes, por simples comparação, que o indivíduo imagina ter saudades de alguém. Ou seja, após ver o filme “Meia-Noite em Paris” tive um surto de saudades de Paris, assim como os personagens. Nunca estive lá, porém a sensação foi tão real que tive a impressão de ter estado. Trazemos sensações de determinadas experiências, aplicando-as a outras novas (lembram-se dos padrões?).

Portanto, é totalmente normal e natural sentir saudades, tanto daquilo que já vivenciamos, quanto daquilo que queremos vivenciar. Do contrário poderia assumir a hipótese de que horas passadas conversando com alguém, quer seja pelo computador, quer seja pelo telefone, de nada adiantariam. Sentimos saudades sim, das boas conversas, das risadas e dos bons momentos ali experimentados. Recomenda-se, todavia, que essas situações sejam vivenciadas na prática, tete a tete, frente a frente, pessoalmente. E quem sabe se tenha saudades de algo ainda melhor, de maiores proporções. Caso contrário, a vida continua.

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Publicado às 22/02/12 por em Reflexão e marcado , , , , , .
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