DOCES DIVAGAÇÕES

Pensamentos voam e, de repente, pousam aqui.

Fim de semana da depressão

Tem se tornado cada vez mais frequente o uso das expressões “sábado da depressão” e “domingo da depressão” por algumas pessoas na Internet (vide Twitter e Facebook). O que exatamente significam essas expressões? Por que o uso tem se tornado mais comum? Quais pessoas têm utilizado essas expressões? Qual o efeito que isso pode causar nas outras pessoas que porventura leiam essas mensagens? Seriam verdadeiras ou simplesmente força de expressão?

Parece fala preliminar do Cid Moreira no início do programa Globo Repórter, da emissora Rede Globo, porém não é. Vivenciei, na prática e na pele, o uso dessa expressão no último sábado, dia 23/07/2011. Ao conversar com um amigo por intermédio do programa de mensageria instantânea MSN, percebi o fato e dei início, então, às famosas Divagações.

A depressão pode ser classificada como distimia (falta de prazer ou divertimento na vida e pelo constante sentimento de negatividade), quando os sintomas permanecem por períodos muito longos de tempo (pelo menos seis meses) de forma “leve”, enquanto que nas ocorrências graves da depressão os sintomas atingem proporções incontroláveis, impossibilitando as atividades normais do indivíduo e obrigando a internação devido ao alto risco de suicídio¹.

a) indivíduos utilizam, então, expressões como “sábado da depressão” ou “domingo da depressão” justamente porque não tiveram seus anseios quanto à programação para o fim de semana atendidos e/ou cumpridos. Para aqueles que não haviam programado alguma atividade sequer, o uso torna-se indiscriminado, uma vez que o indivíduo à toa culpa o próprio dia (ou quiçá amigos) pelo ócio nada produtivo;

b) aparentemente, é possível perceber um excesso de carência por parte dos indivíduos. Os motivos são tantos que poderia divagar somente sobre isso, porém listarei apenas alguns: individualidade excessiva; egoísmo sentimental; apego material; necessidade de autoafirmação; impotência diante da coletividade; educação insuficiente enquanto infante e/ou adolescente e falta de maturidade emocional. Conversas banais de uma noite em casa, aproveitando as programações de sábado e domingo, como Zorra Total e Fantástico, respectivamente, formaram corpo para o uso das expressões anteriormente citadas. Para remover a exclusividade, posso citar também o Cine Belas Artes e o Programa Sílvio Santos, ambos da emissora SBT. Enfim, o que era apenas a falta de uma atividade durante um curto período tornou-se hoje motivo de lamúrias nas redes sociais;

c) percebe-se, então uma grande utilização partindo de pessoas conectadas a redes sociais (vide criação de conta no Twitter chamada @sabadodadepre), de tal maneira que a propagação torna-se imediata. Quais seriam, então, os principais usuários dessas expressões? Os jovens, e por várias razões. Porque não possuem fontes monetárias infinitas para concretização de suas vontades; porque não possuem carteira de motorista; porque não possuem carro (e dependem de carona, porque nunca utilizariam transporte público para sair à noite); porque fizeram algo errado durante a semana, deixando-os de castigo; porque o(a) namorado(a) não pode sair ou, principalmente, porque estão sozinhos(as). A carência, novamente, se faz presente;

e) o efeito disso? Um movimento em cascata, desenfreado e desordenado. Uma multidão de pessoas sem programação definida, mas com dedos ávidos para reclamações dos mais variados gêneros e espécies. E aqueles que estariam, de fato, em depressão, sentem-se de mãos atadas e sem voz, alheios a qualquer manifestação verdadeira. Na realidade, o problema vai um pouco além: em virtude dos motivos listados no item “b”, algumas pessoas não se sentem à vontade nem para chamar um amigo ou um colega de trabalho para sua casa, para assistirem um filme ou simplesmente conversarem. Um convite simplório, para desfrutar de momentos tranquilos, torna-se então uma possibilidade com cunho sentimental e/ou sexual. As pessoas não veem mais amizades em outras, mas um eventual acontecimento amoroso. Quando se está carente então, receber um convite para ver um filme pode soar como o famoso “escurinho no cinema“.

Removendo-se, portanto, as pessoas que realmente sofrem de depressão, no sentido médico, temos aqueles que querem aparecer, a qualquer custo, sem noção da consequência dos seus atos. Banalizar sentimentos, além de amizades, é desperdiçar e não dar o devido crédito às pessoas e ao que elas possuem de bom. Poucos podem querer ficar sozinhos(as) em um sábado ou domingo à noite, mas ninguém quer ser maltratado. Muito menos por alguém que se nutre certo sentimento. Então, antes de utilizar certas “expressões da moda”, pense um pouco a respeito. O resultado será interessante.

¹ texto extraído da Wikipedia.

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2 comentários em “Fim de semana da depressão

  1. Flávio Veloso
    26/07/11

    Percebo um certo padrão de temas e expressões recorrentes nas redes sociais, sobretudo no Twitter, tais como o discorrido acima e, ainda, reclamações sobre a escola, sobre as férias, sobre a falta de férias, sobre a pessoa por quem se nutre uma paixão secreta, por quem são abandonadas no msn, pelas brigas com os pais e suas implicações quanto ao uso excessivo do computador, por bebidas alcoólicas e daí por diante. A maior parte das pessoas que vejo se lamuriando são adolescentes ou mesmo pré-adolescentes que não têm nem idade para conhecerem a maior parte desses assuntos. Penso que trata-se de uma complexa mudança cultural e comportamental por que as novas gerações vêm passando, um fenômeno que me remete ao que desencadeou o Feudalismo diante da queda do Império Romano: a falta de segurança nas cidades leva as pessoas a se prenderem dentro de suas casas, ou feudos, se isolando do mundo exterior e das outras pessoas. Contudo, o acesso irrestrito à internet e seu conteúdo lhes mostra um mundo externo que não conhecem e os excita e incita a viverem uma realidade da qual estão longe – sobretudo por não terem idade para tanto, ainda. As frustrações escritas de forma irônica transformaram-se em piadas e a necessidade de estabelecerem transformou-se em uma luta incessante por seguidores, buscando-os a qualquer preço; ainda que, para isso, tenham que se expor. E, como foi mencionado no texto, o processo se desenvolve como uma reação em cascata: outros, que se identificam ou passam pelos mesmos problemas, utilizam o mesmo recurso para coletarem mais seguidores e daí por diante. Muitos adolescentes que jamais se destacariam na sala no quesito popularidade conseguem obtê-la facilmente em perfis falsos e, geralmente, ridicularizados no Twitter. Na verdade, devo admitir que acho algumas dessas frases, quando bem boladas, até engraçadas. Não me deixa convalescido exatamente o ato de utilizar de sentimentos ou situações negativas para fazer humor; a ironia é uma ferramenta que usualmente lança mão desse recurso. O que me preocupa é o destino que essas pessoas terão e forma como a lacuna de sua vida social será preenchida – o que, na minha época, se resolvia inocentemente com boas brincadeiras da molecada na rua.

    • Marcos Perini
      26/07/11

      Concordo plenamente com sua identificação nesse pequeno exemplo que divaguei no blog acerca da mudança cultural e comportamental existente. Infelizmente, neste ponto, o Google tem papel fundamental para, ao mesmo tempo, abrir os horizontes de conhecimento, mas também reduzir o nível de aprendizagem das pessoas – leia-se compreensão e aquisição da informação. E, por mais incrível que pareça, algumas situações são realmente engraçadas, especialmente quando irônicas. E aqueles que conseguem identificar situações assim são responsáveis, ainda que informalmente, por fazerem o possível para alterar o meio e influenciar, de forma positiva, o ambiente em que vivem. =] Parabéns pelo seu comentário e volte sempre que quiser! 🙂

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Publicado às 25/07/11 por em Reflexão e marcado , , , .
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